Corpo e voz




A casa estava vazia, num silêncio empoeirado. Entre os contornos turvos da meia-luz, tateava um recanto para o corpo. Joguei as chaves, soltei o cabelo e já com os pés despidos repousei num vão entre os móveis, sobre um tapete escuro. Percebi meus lábios traçarem um sutil sorriso -- Pequenos prazeres — pensei – que ingênua delícia. O corpo frouxo se entregava ao chão sem reservas.
Enquanto o corpo repousa, a mente remonta fatos, suscita certas lembranças e por um instante revive pequenos flashes, até eles serem dissipados por aquele silêncio amarelado.
Porém, algo reage a meu corpo, um ruído seco a desviar meu olhar cego. Sei que estou sozinha, por isso num primeiro momento me rendo ao devaneio. Mas de novo vem esse timbre. Meu coração acelera—O que será isso?—Não ouso abrir os olhos, espero bem quieta.
Tento reconhecer o dono da voz, nada, minha respiração abafa os sussurros que nada falam. Meus olhos não ousam abrir, não ousam, não ousam... A voz me toca! Fico gélida, num pavor que só o impossível pode conceber. Aquele timbre vai me tocando até me despir nota a nota. Meus olhos não ousam entender, mas meu tato vai percebendo e compreendendo cada tênue roçar, cada oscilação, cada atrito tenso ou impreciso.
Ele me tem, eu tenho medo. Mas tão inebriada por minha própria pele e por aquilo que meus ouvidos teimam escutar me converto em sim. O timbre se mistura a boca, corpo e mãos. Os barulhos abafados, que se convertem em voz e respiração, comungam com ele. Sou eu, agora, também som... Ele agora também é corpo, e naquele instante despidos de mundo somos um.

3 Recados:

Liza disse...

eu sabia que ninguém iria bater o rafa nesse assunto rss

adorei 8)

Rafa disse...

não entendi pq o comentário sobre mim está no post da bárbara...
hahahahahahahahahaahahahahahahaha


kkkk

rs

Liza disse...

deu um erro hahaha

nem tinha visto q o comentário tinha saído no post errado...

sobre o da barbara:

a barbara sempre foi a nossa parnasiana rs...
prontofalei.