Show dos milhões


E os números são: 15,22,09,02, e 02.
Selmo estava paralisado, sentia o peso das veias saltando freneticamente. Mal podia conter a euforia, sua vontade era mesmo de acordar os vizinhos com seus gritos histéricos, bancar o boiola que sai do armário: – Dois milhões!

Desordenadamente, pôs-se a imaginar todos os sonhos que seriam realizados... as mil viagens à Paris, os casacos de couro, os ternos italianos, as mulheres que passariam por sua cama, carros,festas e a inveja que causaria.

Caminhou em direção ao banheiro e mirou-se fronte ao espelho, esboçou um sorriso de canto bolando todas as novas expressões faciais e o novo “estilo” que exibiria, optou de cara por forçar em todas as próximas conversas o sotaque paulista,(já que sempre viu nas novelas o quanto o “R” de poR favoR tende a soar mais ‘chick’) daria uma coçadinha na cabeça a cada som emitido, bem no estilo Fábio Junior, e pra finalizar, celular só se for no viva voz, dando a impressão de "importante".


Parou por um instante, interrompeu os planos a seco e sentou-se no chão de sua sala 4x4, angustiou-se diante da iminente parte “prática”. Então, seu rico dinheirinho teria uma preciosa parte abocanhada pelo governo e, logo os boatos correriam e seu telefone não pararia de importuná-lo, daí, os amigos do pré 1 reapareceriam todos para cobrar as farras e rodadas ‘por conta da casa’, sim, por conta de SUA casa. Os conhecidos só tocariam em assuntos relacionados a desemprego, os tios correriam para pedir pela mensalidade atrasada da faculdade dos primos, os irmãos nem se fala... iriam chorar todas as mazelas de quem vive de aluguel, até sua vó escolheria um péssimo momento para dar-lhe despesas com internações e velório, sua vida se transformaria em um inferno chamejante de pedintes.

Olhos inquietos, não miravam foco, o suor pingava...
Decidiu-se por fugir, sabe se lá o que inventar, falar talvez ao pai que virara travesti e decidira ‘ganhar a vida’ na Espanha. Ou, simplesmente sumir, correr dos pedidos de favores indesejáveis, sair do estado, do país, rumo aonde seu dinheiro estivesse a salvo dos olhos invejosos e pedintes.

Procurou relaxar, dos dias que teria para retirar seu prêmio faria ele a estratégia mais mirabolante para recebê-lo despercebido.
O suor agora secava e a pulsação diminuía, deliciou-se com um copo de café, jogou-se no sofá, ligou a TV que transmitia o ganhador do prêmio: - Verônica Santos, residente do interior da Bahia!
O peito de Selmo saltava pelos olhos agora totalmente arregalados, voltou-se em ato desesperado para o bilhete: - Não impossível, ta aqui: 15,22,09,02 e 03...calou-se e voltou rapidamente os olhos para o último número: 03...03?

Os olhos ardiam tanto, que foram adormecidos ainda abertos.
Voltava assim a pacata rotina anterior, vida ‘apertada’ de altos e baixos, mas Selmo estava ansioso novamente, segunda, era dia do jogo de cartas com os velhos amigos do pré 1.

4 Recados:

Liza disse...

adorei o "estilo fábio júnior"...

e o rio nos espera.

8)

Carlos Fontana disse...

rsrsr o "sutaque paulista" foi tudo..rs a iminencia de se subir de status leva qualquer um a sair de si..
conto com uma veia crítica e humorista, parabéns!

Rafa disse...

aaahh... muito bom! ótimo!
um conto-comédia... rs!

Adriana disse...

Muito jóia...vertente sarcástica deliciosa!