A estrada


No princípio, ela engatinhava. Mas agora, ereta, podia andar com as próprias pernas. E nem pedia colo.

Com seus pés descalços ela segue pisando de leve o asfalto quente. O vento que sopra norte e as linhas brancas pintadas no asfalto preto a guiam. Passa um carro ou um caminhão, um ônibus de viagem, quem sabe. Buzinam para que ela saia do meio da estrada. Ela continua. Pisa e pisa, pé após pé, os cabelos e a saia esvoaçantes. Sorria e chorava. Aprendeu bem cedo esse sentimento que mistura tristeza e alegria.

Prédios e montanhas. Passava por lugares em que só via mato por todo lado. Via vacas pastando não muito longe dali. Uma vila com crianças correndo e soltando pipa. Um enorme arranha-céu cercado por arquitetura moderna. A estrada percorria cidades pequenas e grandes metrópoles.

O esmalte das unhas dos pés descascavam. Tropeçava numa pedra. Saía um pouco de sangue do dedão. Entre um tropeço e outro, parava e, sentada no meio-fio, suspirava fundo. Se erguia de novo.

Olhava um carro passar. Lhe ofereciam carona. Mas o percurso com rodas não era o mesmo que o com os pés no chão. E os pés doíam. Passava por caminhos tão escassos de sombras e repletos de coisa alguma e o sol tão forte que o asfalto virava brasa. Quando chovia, ela gostava.

Com dor nas costas, deixou a mochila pelo meio do caminho. O peso na consciência era o máximo que podia suportar. E pra quê carregar o passado nas costas? Se as pernas doíam, andava mais depressa para esquecer.

Muito cansada e sem fôlego ria-se lembrando da gente que esquece que a liberdade é uma estrada. E ela segue em frente. Ah se pudesse ir de avião!

5 Recados:

Rodrigo disse...

A vida é realmente uma estrada, que nos leva a um destino que não sabemos qual é, ao certo. Mas temos que seguir na estrada de cabeça erguida...

Lindo texto! Parabens!! =D

Rodrigo disse...

Meu blog mudou de endereço, mas a essencia continua a mesma!

Visite-me:

http://meumundoeminhamente.wordpress.com/

Abraços!

Click disse...

Às vezes eu entendo bem essa nossa falta de palavras, mas não com o entendimento do entendido comum. Entendo com o que continuo não sabendo porque, por exemplo, o meu comentário desde a leitura deste seu texto ainda não consegue ser mais que uma exclamação sem vozes! E é o que eu melhor posso dizer a respeito: essa afirmação eloqüente e sem palavra nenhuma por dentro!

Natacia Araújo. disse...

"Lhe ofereciam carona. Mas o percurso com rodas não era o mesmo que o com os pés no chão".

A liberdade de se alimentar percursos com nossos próprios pés é deveraz uma das melhores sensações existentes.

Maravilhoso! Levou os leitores para teu foco com toda sutileza!
Amei!

thais favoretto. disse...

certamente, se fosse de avião ela não teria entendido que a liberdade caminha lado a lado com os paradoxos. e se liberdade é sinônimo de felicidade, deixe apenas que ela sinta o vento soprar forte no rosto, independente do sol ou da chuva. deixe a ir!