Variações de uma mesma inveja




















A Louca

Passa, rasteira, corrompida
Diante de toda felicidade, o corpo quer sair de uma oração doentia
Nas sextas, sai a louca do espelho
Transborda para o bando seguir livre
Hoje, ninguém nos tira
Os símbolos das praças que nunca fomos
Edifique a festa em um maldito sonho inacabado
Cada pé descalço, capricha em sua fantasia
Invejo o suor de todo o conflito.

A Dama

Quando a dama se esquece do luto,
Faz morada em antigos conventos
Recalques precedidos de glória
Evoca sentidos desejando a morte do outro lado da rua
Óbitos em sono e prece
A dama permanece nas tintas
Pousa em tecido da carne que se ergue
Forma calor moribundo impregnado em ebulições
O feto mexe morto em seu ventre
Em seus olhos cansados ela esquece de abençoar a língua
Prova-se. Está viva. Constata por baixo de cada cratera uma ferida
A intensidade da dama é também a sua morte
Invejo o sulco retirado das tragédias.

A Santa

Só tenho um grão que me esmaga
Espero quieta, nada que eu diga findará esta falta de calor e abrigo
Meu leite empedra e ainda nem sou mãe
Do outro lado, aceno ao ventre seco
A morada do corpo ainda é a placenta doente
Sou fraca,e minha nobreza não sabe sorrir
Invejo os óvulos gigantes que enrolam-se entre si.

A Dissimulada

A cama acalenta insones e insanos
No barro inútil é estreita e passa
Não respeita o corpo
Arromba o que arrancam dela todos os dias
Este sexo confessa todos os crimes
Carrega no colo toda marginalidade
Dissimulada, saboreia os conflitos de outras páginas
Deita-se com seus próprios personagens
Sua fome é sua platéia
Invejo os orgasmos naturais.


A Humana

Identidade. Tudo ali, na prosa infértil
Percorre em segredos engolidos toda a frustração
Sua embriaguez é proposital
É de Deus e do mundo
Foi jogada a loucura de uma poesia estagnada
Enquanto indivíduo, é pura oscilação
Seguimento inteiro e disperso
Dentro de toda inveja não há espaço pra cura.

7 Recados:

Carlos Fontana disse...

Maravilhoso! Diferente de todos os outros que já li teus.
A inveja em diferentes ângulos, adorei tudo, inclusive os critérios pras denominações: de louca a humana. Perfeito!
Lindo,forte e cortante!
Parabéns querida, isso aqui está cada vez melhor!

Edina Regina Araújo disse...

Somente quem conhece tão bem a natureza humana é capaz de explicá-la desta forma.Tendo como base uma sensibilidade tão declarada,mostrando um talento fora do comum.Maravilhoso!!!!!!

M. D. Amado disse...

Inveja boa é aquela que sentimos quando por exemplo, queriamos ter sido nós os autores de textos que mexem conosco de tal forma, que gostaríamos de ser seus "donos", ou "pais".

Você está cada dia melhor, embora isso pareça impossível.

Parabéns querida!

Bianca Nonato disse...

Menina! Tenho que visitar mais vezes isso aqui! Demais que invejaaaa...rsrsr

A louca: " Invejo o suor de todo o conflito"

A dama: "Invejo o sulco retirado das tragédias"

A santa: "Invejo os óvulos gigantes que enrolam-se entre si"

A dissimulada: "Invejo os orgasmos naturais"

A humana:"Dentro de toda inveja não há espaço pra cura"

A Bia: " Caralhoooo que invejinha boaaaaaa...rsrsr"

Amo!

Adriana Nunes disse...

Bia não deixou nada pra se comentar aqui...rs
Demais Nat!
Teu melhor pra mim foi esse!

Liza disse...

eu já ia falar que estava faltando alguma coisa aqui no blog.

aí a natacia resurgiu.

era isso mesmo, acertou em cheio.

8)

Débora disse...

Linda!! Você é "profissa"!! Perfeito! Além de conseguir mostrar os ângulos diversos da inveja... fez tudo isto com a mesma contudência e doçura que vc sempre escreve! Sou tua fã!!