Seis Letras

















É pra falar de nós?


Nosso absurdo correspondendo-se em versos
Transmissão de pensamentos
Uma caligrafia e intenções inconfundíveis
Sabemos que com o corpo, lemos nossas próprias poesias
Brotamos de um tecido cortinado
Temos sono, noite, e estrelas
Temos arte em movimentos poéticos
Germinamos descarados em qualquer cena
Inúmeras linhas tecidas em poros
Escrevemos em fórmulas de desejos incompreendidos
Esta página é um itinerário abusivo
Aqui, inventamos um ócio transgressor
Nos apropriamos de uma literatura renovada
Expelidos das palavras, nossa paisagem é o papel
Temos um vício que nos pertence desde sempre
Seis letras erguendo nova possibilidade
Seis orgasmos em uma oração
Fazemos dos delírios convincentes
Servimos o desejo das palavras
Existe troca em nossos descompassos.

Sem Sono





é pra falar de sono?

Sem Sono
Esta inquietude sem sentido
Já é tão tarde...
E o meu relógio marca o mesmo horário de ontem.
Meu corpo não comporta mais tanto sentir.

A sensação é de que escapam sentimentos tantos
Pelos meus olhos sempre abertos...
Meus pés se balançam sem calma...
Vagam dúvidas mesmas de sempre...

Aflição sem dono...
Aflição sem sono...
As estrelas do teto do quarto...
Brilham e apagam na medida que o dia chega...
Fabriquei meu céu particular...
Porque estou sempre sem sono...

A noite passa... As estrelas dormem...
A lua descansa... E meu sono...
O mesmo horário, o mesmo relógio...

Um choro seco, sem lágrimas...
Eduquei meus músculos oculares...
Sabem quando podem lacrimejar...

Dor... é de cansaço...
Espera por nada...
e eu ainda de pé...

Me deito no vago espaço da cama...
E parece grande...
Mas não acomoda este meu corpo tão carregado de coisas suas...

Conto as horas...
Conto as estrelas poucas que restam...
Conto os cantos do quarto sem léguas...
Os espaços entre nós...

Conto os nós...
Só não conto mais este meu pensar que é tanto!
Água doce, camomila, maracujá...Cafuné!!!
Algo... alguém... Calmante!!!
Sono de volta...
Sonhos de volta...

Meu corpo não comporta mais tantos anseios, tantos desejos e aflições...
Tudo e tanto... por tão pouco ou nada...

Eu quero realizações!!!

Construindo sonhos

é pra falar de estrelas?



O sol da tarde estava escaldante. Miguel não suportava mais trabalhar daquele jeito.
- Vamos logo com isso Miguel. Já está na hora de ir pra casa. – Gritou Fernando.
Durante o caminho de volta à vila, os dois amigos conversavam. Miguel mais olhava o céu do que seu amigo. As palavras não lhe atraiam a atenção, não mais do que o céu estrelado sobre suas cabeças.
- Essa tal de São Paulo vai ser uma grande cidade. Você não acha, Miguel?
- Ah?! Ah, sim. Claro! – Depois de um breve silêncio, comentou. – Fernando, por que a gente não trabalha de noite?
- De noite? Que moléstia você tem, Miguel? De noite é escuro, não dá pra trabalhar.
- Mas as estrelas são tão brilhantes. Poderíamos trabalhar apenas com a luz delas. Aí, a gente não ia se cansar como se cansa de dia. E a gente pode se inspirar olhando o céu.
- E desde quando gente como nós precisa se inspirar, Miguel? Nosso negócio é levantar parede, muro, tijolo, fazer caminhos e outras coisas. Inspiração é pra burguesia, pra artista. Inspiração é pra aqueles que vão morar nessa São Paulo.
A conversa terminou, e ambos seguiram para suas casas. Eram humildes, mas estavam recebendo uma boa refeição e alguns tostões pelo serviço. Faziam parte de uma seleta mão-de-obra, responsável pela construção de uma grande cidade; da nossa São Paulo.
No dia seguinte, Fernando chamou Miguel, que preferiu ficar mais um pouco. Mas esse pouco durou a noite toda; noite, em que Miguel ergueu um comprido muro. O trabalho noturno tinha rendido, e não seria capaz de fazer tudo aquilo nem em dois dias de trabalho duro.
- Miguel. Você fez esse muro sozinho durante a noite? – Perguntou Fernando ao chegar no local de trabalho.
- Fiz sim. – Orgulhou-se. – Trabalhar de noite é melhor, mais calmo e com mais paz.
- E por que fez esse muro? Ele não vai servir pra nada.
- Serve sim Fernando. Ele pode servir para observar o céu. Ver as estrelas.
- Mas a cidade vai crescer. Talvez não seja mais possível vê-las. Ele vai ser esquecido no meio dos grandes casarões.
- É verdade. – Respondeu Miguel entristecido. – Talvez as pessoas se esqueçam de olhar para o céu.

...

Hoje aquele muro ainda existe. E é nele em que eu olho para o céu e vejo as estrelas.

Naufrágio


Ali deitada do teu lado vi um horizonte. Algo como uma linha fina, um traço quase invisível que separava esse mar de águas paradas e o céu, azul mas sem pássaros. Talvez fosse a tua culpa.

Ali deitada na tua cama, sentindo o cheiro do teu cabelo, avistei essa rachadura no teto. Esse céu sem estrelas que se estende sobre nossas cabeças e que agora nos oprime nesse mês de julho. Pobre de meu céu, testemunha das constelações que criamos. Agora a rachadura. Talvez fosse o concreto cedendo aos poucos, formando goteira.

Me levantei. Na ponta dos pés, com a ponta dos dedos, podia segurar a rachadura. Enquanto você, ali deitada, dormia um sonho ainda mais distante que o meu e nem desconfiava do que acontecia na sua própria cama. As gotas se formavam ao redor da ponta dos meus dedos. Escorria lágrima dos meus olhos. Doces ou amargas, as águas se misturam. Cada gota, uma a uma, percorria os meus dedos. Eu não sabia mais por que ainda tentava. Mas não podia deixar chover sobre nossa cama. Não podia. De repente, o horizonte, cada vez mais perto. E a tormenta que afunda o nosso barco. Talvez fosse o meu medo.

Você, mocinha em apuros, e aquele pirata te levou embora. Sozinha nesse mar, eu só tinha essa linha e essa rachadura. Cansada demais, soltei e me deixei cair na cama, deitada do teu lado. E esse céu que desaba água sobre o nosso pecado. Talvez fosse esse amor pela metade.

Meia Verdade



“Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes se abrirão os vossos olhos e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal”.


Eu não sou Deus nem o Diabo, não sou bom nem mau. Sou fruto da mente de uma minoria que conhece os métodos de manipulação.
Eu não morri na cruz, nem lavei seus pecados. Não fui mártir, nem ladrão. Uma pomba não desceu dos céus. Não ressuscitei Lázaro. Os peixes e pães jamais multiplicaram-se. Judas não foi tão cruel assim. Não sou do Papa nem de Buda. Casei e fiz amor. Nunca neguei ou afirmei.
Não sou mentira. Sou uma meia verdade que oscila.

E no princípio, Deus criou os cínicos e os dissimulados.