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Rio duas vias


Três bondinhos por sua Tereza
Posto que nove seja a menina que vem e que passa...
Nem só de Leblon vive a Lapa

Terra-província
Mar que se aterrou
Largo da Carioca que vende arte
Centro-Avenida
Avenida do Rio Branco...
Rio canto,
E se canta é samba
E samba é no morro
Se é morro, tem que ser Estácio
Estácio mira braços Redentor
Estende mãos Guanabara
Pra Guanabara, há quem diga que no Rio não tem Bahia
Há de ter Ilha Grande, tamanha Angra que estoure fenda do saco do céu
Há de ter travessura suburbana nas vilas e casas
Romper Janeiro na copa de um mar

Pra ser Laranjeiras, inegável planta-lá de pé
Rio duas vias
Nascente ao mar.

Arpoando



Nasci em janeiro. Em algum lugar na Tijuca. E desde cedo eu procurava. Fui para Ipanema ver se estava lá. Gringo, gente de sangue azul, arrastão, posto quantos. Briguei com a praia, ela não tinha vento para me dar. Nem no Arpoador, que fica tão lindo em foto, tão feio em vida. Fechei os olhos. Jurei que vi uma baleia. Não, não estava lá.

Fui ver se estava na Barra. Só achei coisa mesquinha. Tentei me encontrar no funk. Até bebi um gole de bossa nova. Estava me apaixonando pelo Chico, mas cantei com a Fernanda Abreu. Me levaram para a Portela. Mas nem o samba deu onda. E eu continuava procurando.

Me escondi por uns tempos na Lapa. Por alguns minutos achei que tivesse encontrado. Hipies de calçada, criança de rua, cheiro ruim, cheiro de pobreza, beleza de rio antigo. Nunca subi no bonde para Santa Tereza. Ao invés disso, corri pela escadaria. Já tentei ser flamenguista. Não gosto de futebol. Onde? Cadê?

Eu chio muito. Isso às vezes irrita. Uma vez me chamaram de carioca. Eu não uso fio-dental na praia, nem vou ao Maraca no domingo. Guardei uma foto do Cristo. Não sei por que, mas passei a vida inteira sentindo falta.