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Ausente



Quero me doar em versos...
E me dôo mais à medida que aumenta tua fome...
Quero mesmo que não reste nada de mim.
A não ser novas linhas que contem nossa história.
Se pudesse ler minhas entrelinhas...
Saberia que em cada vírgula,
Respiro um pedaço teu.
Ah, se neste teu silêncio tivesse guardado mais de mim...
Nas noites vazias, vou somando as coincidências.
Sinto que foi feito sob a medida das minhas loucuras.
Não há nada em você que eu não goste muito.
Sinto que podemos ser...
És o portador das minhas fórmulas de amor...
O tempo te guardou em mim...
E ainda que a distância persista...
Rompo as barreiras entre passado e presente...
Te tenho em meu futuro...
Futuro do pretérito perfeito!!
Pode ser que seja...
Pode ser que virá...
Mesmo que ainda esteja ausente...

Nem aí!

Eu não estou nem aí! Quando eu ouço o meu som, visto minha roupa e coloco os óculos escuros, eu simplesmente não dou a mínima para o resto. O vidro aberto, o som alto e a velocidade aumentando.
Ouço aquilo que agrada os meus ouvidos, sinto a liberdade entrando pela janela e observo tudo àquilo que me dá na telha; seja uma saia curta, seja um carro importado, seja um velho bêbado na rua. O braço pra fora da janela e o sorriso no rosto. Não estou tentando atrair olhares, apenas estou feliz. Estou satisfeito com o momento – sempre estou, seja ele qual for.
Um apressadinho buzina, o farol acabou de ficar verde. Deixo o palhaço passar, pois eu não estou nem aí, logo eu passo por ele. Faço meu caminho, mesmo sem saber para onde estou indo. A música aumenta conforme o meu pé direito se aproxima do assoalho. O ponteiro gira e o vento bagunça meu cabelo.
Vejo um radar, corto pela direita e no retrovisor eu vejo a luz do flash. Não estou nem aí! Eu quero acelerar. O sol está se pondo, a temperatura não poderia estar mais agradável e meu braço se movimenta de acordo com a batida do som.
Mais um semáforo e dessa vez eu paro. Ao lado do meu carro uma mulher maravilhosa. Flertamos. Tentei trocar algumas palavras, mas ela fez doce. Assim que o farol ficou verde, arranco cantando o pneu e dou uma trancada nela. Isso é pra aprender a não se fazer de difícil. Metida!
Continuo acelerando e dessa vez tenho espaço para pisar. Não terei que brecar tão cedo, ou talvez, não precisarei brecar mais. Em alguns quilômetros aquela curva vai chegar e eu não vou brecar. Será que vou passar reto ou irei capotar? Tanto faz, afinal, o que o médico me disse mesmo? Talvez uma semana, duas no máximo... Hoje completam duas semanas, não vai restar mais tempo mesmo. Então não importa se eu passar reto ou capotar... Eu não estou nem aí!

Destino


Pouco a pouco vai anoitecendo
Durante mais que um dia não pesquei
Coloquei no anzol a melhor isca
O caniço curvou-se durante a briga
Trouxe o peixe a tona e o soltei
E fiz isso muitas vezes nesse dia
E talvez repita o mesmo amanhã
Foi mais uma escolha dividida
Alimentar os peixes da baia
Ou saciar a fome do meu clã
E de novo os peixes têm vencido
Eu mesmo só como pão e água
Eu gosto de vê-los em briga
Recolher aos poucos a vara retorcida
Torcendo para a linha ser quebrada

A estrada


No princípio, ela engatinhava. Mas agora, ereta, podia andar com as próprias pernas. E nem pedia colo.

Com seus pés descalços ela segue pisando de leve o asfalto quente. O vento que sopra norte e as linhas brancas pintadas no asfalto preto a guiam. Passa um carro ou um caminhão, um ônibus de viagem, quem sabe. Buzinam para que ela saia do meio da estrada. Ela continua. Pisa e pisa, pé após pé, os cabelos e a saia esvoaçantes. Sorria e chorava. Aprendeu bem cedo esse sentimento que mistura tristeza e alegria.

Prédios e montanhas. Passava por lugares em que só via mato por todo lado. Via vacas pastando não muito longe dali. Uma vila com crianças correndo e soltando pipa. Um enorme arranha-céu cercado por arquitetura moderna. A estrada percorria cidades pequenas e grandes metrópoles.

O esmalte das unhas dos pés descascavam. Tropeçava numa pedra. Saía um pouco de sangue do dedão. Entre um tropeço e outro, parava e, sentada no meio-fio, suspirava fundo. Se erguia de novo.

Olhava um carro passar. Lhe ofereciam carona. Mas o percurso com rodas não era o mesmo que o com os pés no chão. E os pés doíam. Passava por caminhos tão escassos de sombras e repletos de coisa alguma e o sol tão forte que o asfalto virava brasa. Quando chovia, ela gostava.

Com dor nas costas, deixou a mochila pelo meio do caminho. O peso na consciência era o máximo que podia suportar. E pra quê carregar o passado nas costas? Se as pernas doíam, andava mais depressa para esquecer.

Muito cansada e sem fôlego ria-se lembrando da gente que esquece que a liberdade é uma estrada. E ela segue em frente. Ah se pudesse ir de avião!

Maktub


O homem sente que o tempo flui
O homem sabe, que ainda que turvas, as respostas vem e vão
E que não existem normas específicas para vida e morte
Morrer é no ato do romper do ciclo
A escolha daqueles que muito ouvimos falar e nada conhecemos
Pois eles, certos ou errados, mandantes ou encarregados, anjos ou demônios cortam nossas correntes
E nos levam de nós
Se termina ou se começa em outro canto
É pergunta milenar

O homem sente que sua família, suas mãos e sua época são impregnados de outros nomes
Nomes dos quais não se lembra, mas a intuição aguça...
Ele lembra do cheiro das romãs, do gosto da graviola e do toque de seus filhos de outrora
Ele vê familiaridade na voz da jovem
Ele ouve pela segunda vez a mesma frase...ouviu quando a primeira?

Ele desejou por tantas vezes aquele desejo e só lhe trouxeram tão depois...

Um dia, o homem sente que encontrou o improvável, o absurdo, o extra-essencial
Ele sente então, o encontro do novo, e se recorda nitidamente que o novo é rastro preparado
Por mãos de quem?
Ele sente que os passos rumo ao extemporâneo o desafiam
Porque ainda que contido, o homem sente o quão além de nós mesmos estamos nós.