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Meia Verdade



“Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes se abrirão os vossos olhos e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal”.


Eu não sou Deus nem o Diabo, não sou bom nem mau. Sou fruto da mente de uma minoria que conhece os métodos de manipulação.
Eu não morri na cruz, nem lavei seus pecados. Não fui mártir, nem ladrão. Uma pomba não desceu dos céus. Não ressuscitei Lázaro. Os peixes e pães jamais multiplicaram-se. Judas não foi tão cruel assim. Não sou do Papa nem de Buda. Casei e fiz amor. Nunca neguei ou afirmei.
Não sou mentira. Sou uma meia verdade que oscila.

E no princípio, Deus criou os cínicos e os dissimulados.

Seus olhos

Suas doces palavras alfinetavam minha cabeça. Eu tentava pensar em uma coisa, mas elas me conduziam para outro lugar.
Fui transportado para lembranças que já estavam esquecidas. Momentos que haviam se apagado da minha memória.
O sorriso em seu rosto era como uma apunhalada nas costas, contrariando tudo o que eu estava tentando sentir. Ele dava forças às suas palavras, trazendo-me conforto e serenidade.
Sua pequena mão segurava a minha com firmeza e segurança. Era eu quem precisava do conforto. Como podia uma pequena criança trazer tanta sabedoria e tranqüilidade? Como poderia eu, comportar-me como se fosse indefeso diante dela?
Suas palavras conduziam-me ao lugar mais tranqüilo da face da terra, dizendo-me que tudo ia ficar bem. Aquele seu sorriso confirmava o que dizia, era impossível não acreditar.
Mas seus olhos, havia algo em seus olhos.
Somente quando eles se fecharam, quando a força de sua mão ao redor da minha diminuiu e o sopro de vida deu o último suspiro em seu peito, é que percebi que você mentia. Percebi que as coisas não ficariam bem.
Foi quando perdi minha filha que eu descobri que a boca e o corpo podem mentir, mas os olhos não.

A mentira

Já cansei de ouvir que mentira tem perna curta. O maior defeito da mentira não está no tamanho das pernas, mas no seu poder. Poder de bomba atômica. Matematicamente, se colecionamos dez momentos bons e, no final, um deles – só um deles – foi mentira, todos os outros são subtraídos a zero. Agora deixe os números de lado. Quanto a mim, você destruiu a minha Hiroshima.