Mostrando postagens com marcador * Natacia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador * Natacia. Mostrar todas as postagens

Seis Letras

















É pra falar de nós?


Nosso absurdo correspondendo-se em versos
Transmissão de pensamentos
Uma caligrafia e intenções inconfundíveis
Sabemos que com o corpo, lemos nossas próprias poesias
Brotamos de um tecido cortinado
Temos sono, noite, e estrelas
Temos arte em movimentos poéticos
Germinamos descarados em qualquer cena
Inúmeras linhas tecidas em poros
Escrevemos em fórmulas de desejos incompreendidos
Esta página é um itinerário abusivo
Aqui, inventamos um ócio transgressor
Nos apropriamos de uma literatura renovada
Expelidos das palavras, nossa paisagem é o papel
Temos um vício que nos pertence desde sempre
Seis letras erguendo nova possibilidade
Seis orgasmos em uma oração
Fazemos dos delírios convincentes
Servimos o desejo das palavras
Existe troca em nossos descompassos.

Meia Verdade



“Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes se abrirão os vossos olhos e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal”.


Eu não sou Deus nem o Diabo, não sou bom nem mau. Sou fruto da mente de uma minoria que conhece os métodos de manipulação.
Eu não morri na cruz, nem lavei seus pecados. Não fui mártir, nem ladrão. Uma pomba não desceu dos céus. Não ressuscitei Lázaro. Os peixes e pães jamais multiplicaram-se. Judas não foi tão cruel assim. Não sou do Papa nem de Buda. Casei e fiz amor. Nunca neguei ou afirmei.
Não sou mentira. Sou uma meia verdade que oscila.

E no princípio, Deus criou os cínicos e os dissimulados.

Variações de uma mesma inveja




















A Louca

Passa, rasteira, corrompida
Diante de toda felicidade, o corpo quer sair de uma oração doentia
Nas sextas, sai a louca do espelho
Transborda para o bando seguir livre
Hoje, ninguém nos tira
Os símbolos das praças que nunca fomos
Edifique a festa em um maldito sonho inacabado
Cada pé descalço, capricha em sua fantasia
Invejo o suor de todo o conflito.

A Dama

Quando a dama se esquece do luto,
Faz morada em antigos conventos
Recalques precedidos de glória
Evoca sentidos desejando a morte do outro lado da rua
Óbitos em sono e prece
A dama permanece nas tintas
Pousa em tecido da carne que se ergue
Forma calor moribundo impregnado em ebulições
O feto mexe morto em seu ventre
Em seus olhos cansados ela esquece de abençoar a língua
Prova-se. Está viva. Constata por baixo de cada cratera uma ferida
A intensidade da dama é também a sua morte
Invejo o sulco retirado das tragédias.

A Santa

Só tenho um grão que me esmaga
Espero quieta, nada que eu diga findará esta falta de calor e abrigo
Meu leite empedra e ainda nem sou mãe
Do outro lado, aceno ao ventre seco
A morada do corpo ainda é a placenta doente
Sou fraca,e minha nobreza não sabe sorrir
Invejo os óvulos gigantes que enrolam-se entre si.

A Dissimulada

A cama acalenta insones e insanos
No barro inútil é estreita e passa
Não respeita o corpo
Arromba o que arrancam dela todos os dias
Este sexo confessa todos os crimes
Carrega no colo toda marginalidade
Dissimulada, saboreia os conflitos de outras páginas
Deita-se com seus próprios personagens
Sua fome é sua platéia
Invejo os orgasmos naturais.


A Humana

Identidade. Tudo ali, na prosa infértil
Percorre em segredos engolidos toda a frustração
Sua embriaguez é proposital
É de Deus e do mundo
Foi jogada a loucura de uma poesia estagnada
Enquanto indivíduo, é pura oscilação
Seguimento inteiro e disperso
Dentro de toda inveja não há espaço pra cura.

Já não estou





















Indefinida ida
Instigante e confusa
Instantaneamente expelido
A incapacidade dos músculos conduz a expectativas irreais
Programo-me para não amar
Dá-me rotas, pois estou doente de razão
Amei um homem humano
Corro em pedaços enjoados do que restou
A sensação de fuga é desconfortável
Eu já não estou
Permeio a penúltima curva
Sigo sem saída
Nós dois numa queda
Ele não entende minha língua
Além de qualquer caminho há volta
Preparo o imprevisível
Todas as promessas derramadas
Que não me faltem ruas, pois preciso preparar os ânimos...
Amanheci sem conhecer o dia
Encontro-me em despedida
O que ainda me prende?
Nunca me preparo...
Meu amor sobrepõe minha astúcia
Tua bondade é tua loucura
Vou sugar bocas vazias resfriando nossas dores
Segues...
Agora, sei que isso vai passar
Dona de sonoras saudades
Adeus. Me encontra.

Sacia-me


Início da pintura:

Uma folha costurando os contornos, fruto da colheita poética. Na boca, poléns (dai-nos um pouco mais do vermelho), fuxicos coloridos.
Momentos em que Deus mostra nossas costuras, só pra se ouvir dizer: - Da arte queremos também o verso! Um desses sonolentos, atrevidos, temperados de insanidade.
Todos os pincéis-borrados.
- Pensamos não inspirar.
Escrevemos o que a nós não pertence. (Adentrem na pimenta de nossos verbos mais sarcásticos).

Olhamos para o chão e não suportamos a idéia de ter pés fincados em um branco tão desbotado.
Já estes versos do artista, são sempre errantes. Mas, a arte em si tem formas de nuvens presas. (Soam vôos absurdos).
Diante da arte, nesta roupagem pálida, conformo-me em ser um “nada”.
- Não há injustiça maior que justificar um artista atrofiado.

A arte é umbigo do ventre terra que nos pariu.
-Deixo de interpretar paisagens.Somos apenas o palco da obra.
Abra mão de significados cultos e ocultos. Consagra-se arte em incompreensão calada.
A arte fica exposta na eternidade que sempre reinventamos. Arte exposta: - visitantes de nós mesmos.

Os versos estão entranhados nos dedos. Frio: manifesto-Esculturas indefinidas. –Não compreendemos possíveis olhares.
- Pintamos quando o retratado eclode.
- Decodifique arte. Ânsia do encanto poético-humano.
Todas as artes emergindo das indefinições. Se não vemos o amarelo, tampouco criamos o verde.
Ainda assim, estamos acesos.

Estar vivo é um estado de arte.

O grande artista guarda o sol no sono. E se escreve, escreve no vento.
Doce beijo vira prosa.
A arte, por vezes nos pega no colo, mostrando-nos os grandiosos caminhos subjetivos.
Traduz transcendente em movimentos artísticos no qual nosso espírito pelo infinito dançou.

Arte definida é violação.

A arte grita: - Sacia-me!
O tesão que o outro sente, agrada ou enoja.
A arte ferve: São de palavras que arrepio.
Os poetas sofrem de um tédio aparente, de uma ansiedade criativa.

A arte não poupa papéis. Antes, renova-se em madeira, amor e aço.
Diante de certos olhos, os papéis pouco dizem. Mas, estes poetas escrevem no escuro.
Felizes os que não prevêem nada. Estabelecendo a imprevisibilidade da arte.
A arte rompe as rédeas que não lhe pertencem.

Atemporal. Abraça quem a estiver contemplando.

Por vezes, encurva-se para ninguém ver. Esta que pincelada ganhará a tonalidade única que lhe garante o direito de ser poluída por deuses ferozmente humanos.

- Não nasci para ser entendida. Resmungou a arte.

Sonoridade


Estéril rádio estação sem-luz
O teu suor é surdo
E eu já sou feita de espasmos melódicos
Da folha: cantiga
Assobio borboleta, grande festa de girassóis quadrados
Caindo a desaguar sonoridades
Desta música sombra universal

-Parece que se você ouve o canto, é inevitável ir parar no fundo-

Uma marchinha de carnaval: carnavalizando o sumo da vida
Grite. Você não vai ouvir mais nada
Impregnado bloco de frevos das células ciliadas
Dedilhando os coros eufóricos
As partículas propagam quando o canto é por chuvas dançar
A valsa é humana

Preciso de sonoridade
Esta ânsia que troca músicas e tons
Saberei cantarolar descompassos em dó maior
Há de nascer imune quem não souber ouvir

Dos braços que embalam o bloco, em que batida se escuta o tom exato?
Musicalize o óbvio
Corpo-coletivo colhe ativo
Quando ouço aquele tom, os poros se arrepiam.
E canto das suburbanas bêbadas razões insanas

Vendo o ritmo-meu pagamento é dívida
Grandes olhos quando a canção é do povo
O coro sai das casas, leves, pesados e desequilibrados.
Coloquei para fora uma voz grave, queria ter soltado Buarque de sua prisão
Nestes tons- inúmeras possibilidades:
As enzimas criativas do amanhã.

HomoLabirintus


































Você sabe que está aqui por um tempo limitado.

Mas o trabalho, o relatório de quinta, o curso de terça a noite, o passeio com os cachorros aos sábados e a empada de domingo te fazem esquecer de tudo quanto fosse existencial. Daí, pra você só existe o quanto você está atrasado para a prova da faculdade e como aquela calça que você ama está justa nos quadris.
Assim, sucessivamente amanhã só existirá a conta de telefone que veio um absurdo, diga-se de passagem com ligações para o Marrocos...- Marrocos?
Agora, você está sem a calça que ama e com o iminente pepino de processar a Telefonia.Então vai dormir "pê da vida".
Novo dia, novos pensamentos: no trabalho você hoje produziu bem, tirou ótima nota naquela prova da faculdade, agora está tão bem que até a calça entrou numa boa. Ficou feliz e até desistiu de processar a Telefonia.
Amanhã será outro dia...e depois mais outro...
A cada dia os que te cercam, você mesmo e a vida vão se encarregar de "fluir" rumo a novos acontecimentos. Por isso, terão dias em que ver um moleque cheirando cola na AV Rio Branco vai cortar seu coração, e outros, que nem mesmo um orfanato inteiro rogando ajuda vai fazê-la diminuir os passos rumo ao ponto de ônibus.
Dias atrás e outros mais adiante, você irá refletir o quanto o mundo é injusto e desigual e que as pessoas precisam fazer algo para ajudar...é aí que você planeja virar monge e sumir de toda essa "coisa" louca, mas depois você descobre que ama esfirra e MC lanche feliz juntamente com todo "conforto".

De repente, você leva um susto...perde um amigo, um parente ou um cônjugue. Isso acaba com sua vida. Mais do que nunca,você está certo de que não quererá mais viver.
Decide começar por parar de comer, no entanto, quatro horas depois lembra de sua gastrite e come na tentativa de aliviar o "incômodo". Mas agora, com certeza você irá olhar a vida com "novos olhos", irá valorizá-la muito mais, aproveitando cada momento com cada um a sua volta,sim! Até as formigas serão exaltadas e respeitadas em sua nova fase!
Você jura que teria feito isso se dois dias depois aquele mal educado do porteiro a tivesse cumprimentado... talvez assim você o odiaria um pouco menos.
Por fim, você reflete o curso de sua vida: O quanto ela passou depressa e você ainda não conseguiu se purificar.
Não virou monge, não dedicou-se aos pobres, não fez voto de castidade, não fez nada!
Nem as orações infiel que é consegue concluir, pois dorme antes de cada amém.
No auge do desespero você clama: - Senhor o que farei?
Nenhum som é ouvido...
Na Tv ainda ligada, Marta Suplicy aconselha: Relaxa e goza...

Você ri...
A vida é doida mesmo...quem diria que ao invés de Buda, Padre Marcelo Rossi ou Oxalá a luz viria de Marta.

Lúcia


Sua mão formigava até a ponta dos dedos, ali, permaneceu deitado, noutro nível de razão. Na mesa de patina envelhecida, descansava os restos de cocaína e a vodka barata de uma viagem a mais da noite passada. Os quadros minimalistas caídos por cima do sofá plutônio e couro traziam a náusea da miséria dos últimos tempos.
Tudo escuro, inclusive o líquido coagulado no corpo sob a cama... Caminhando em direção ao banheiro ele limpa o vidro do espelho sujo e embaçado, o espírito ainda flutuante, caminha agora em direção à geladeira, passos arrastados, a boca ainda seca, se abre na tentativa de saciar a sede, mas o cheiro forte vindo do quarto anuncia nova náusea. Senta-se com esforço no chão do corredor cor de vinho e voltam os flashs sintomáticos aderidos ao fígado, estômago e traquéia que agora se fecha quase que completamente enquanto pouco a pouco volta a si....
Estava consumado: o bilhete, o telefonema, os gritos,o fim.
Arrastando-se rumo ao quarto, põe as mãos sob o lençol de lasie e afaga o antebraço de Lúcia, o corpo alvo já em estado inicial de putrefação, ainda conserva os cabelos loiros que ele tanto amava, o sangue empretecido secava na fenda formada em seu pescoço, ainda não consegue chorar, três dias talvez? E nem ao menos uma lágrima...
Voltando os olhares para a carreira de cocaína ainda deixada sob a mesa, esboça um sorriso de canto, brincando com o novo carrossel ainda não consumido, senta-se na mesa enquanto joga beijos na direção de Lúcia. Os móveis não estavam na posição que gostava, ficou ali imaginando se fora sua fúria que jogara os rastros de objetos ao redor ou se a deslealdade de Lúcia que o incitara a ter fúria. Logo ele, que apreciava a organização dos fatos e das coisas.
Tudo em seu devido lugar...os quadros quatro dedos acima do sofá, a mesa direcionada ao quarto, o espelho centralizado acima do lavatório, nada alterado, tudo na ordem de seu lar.
Um silêncio. As poças coaguladas em baixo da mesa o incomodaram, amanhã talvez retirasse um pouco dela...Voltou-se para sua infiel Lúcia, deitou ao seu lado. Tão linda...os cabelos ainda estavam loiros.

Moradia


Cada dobra do meu corpo tem cheiro de mar
Porque meus ossos estão pintados de vermelho
Ascendo teus olhos
Provocando meus dedos, comendo minha mão com sal
Ajoelho-me diante do altar dos diabos
Dentro da minha boca ele dança

Poderia ser qualquer outro corpo, mas é da tua boca que quero lubrificar teu sono
Uma língua e minha santidade humilhada
Nada mais pedi... que não fosse uma língua
Suplício discreto onde meu corpo pede paz e pede guerra

A cada sussurro o delírio o gozo:
O desejo descontrolado de pintar imagens
Desenho em tua cabeça uma mulher nua arreganhada em seus jardins
Teu fluído canta por todos os meus pêlos
Vasculho com a língua o fluído do outro, e vasculho saídas
A língua queria desenhar ali, completa, escorrendo pelos cantos o gosto
A língua consentiu com o gozo

Devagar, bem devagar entre...
Adentre a única cavidade do grande devaneio
Lubrifico em meus dedos as entidades mais explícitas
Dança em tudo que preciso
Movimentos trêmulos, suados
Após o gozo a sensação perdura
Os músculos tornam-se vazios como as ondas
Teus olhos transam com minha íris
No útero do céu, o brilho escorre pelas coxas
Tua rua é um rio de orgasmos.

Renúncia


Pertenço ao ventre órfão da saudade
Apenas observo a queda
Angustio curvas da consciente agonia
Alivio acenos e sussurros
Este chão encarde as percepções
Neste chão perambulo meu ócio
Sinto falta do concreto absurdo
Guardo-me íntegro feto do ventre só

Renuncie a negatividade da posse?

Optar tecer folhas nos olhos alheios
Se pensar ausência de outros,
Lhe diria estar pintando novas espécies
Daí rompendo as certezas
Severo em atitudes
A intuição distante:

A solidão explica os versos.

Pauper




















Daquela casa ouvia-se apenas os gritos
De um medo que sempre penetra
Entregam pois, as folhas abertas despidas de esperança
E gemem os pratos suspensos de nada colorido
Assim celebram-se as manhãs
De mãos rasgando a nudez de corpos magros
Recolhendo a surpresa da fome por ossos

Ainda não aprenderam a morder a língua e gritar pra dentro
Errei ao dar luz crias
Perpetuando sementes minguadas
Deixo o cansaço os criar

Sobre tijolos em falso
Nos basta não ter
De línguas e dentes cultivam miséria
Rezam os grandes nos próprios umbigos
Ninando a distancia que pesa

Com os pequeninos
A noite apaga o branco
Puxo destas verdades incoerentes
Faço aliança a impotencia

Da tua lágrima se enxerga o mundo.

Maktub


O homem sente que o tempo flui
O homem sabe, que ainda que turvas, as respostas vem e vão
E que não existem normas específicas para vida e morte
Morrer é no ato do romper do ciclo
A escolha daqueles que muito ouvimos falar e nada conhecemos
Pois eles, certos ou errados, mandantes ou encarregados, anjos ou demônios cortam nossas correntes
E nos levam de nós
Se termina ou se começa em outro canto
É pergunta milenar

O homem sente que sua família, suas mãos e sua época são impregnados de outros nomes
Nomes dos quais não se lembra, mas a intuição aguça...
Ele lembra do cheiro das romãs, do gosto da graviola e do toque de seus filhos de outrora
Ele vê familiaridade na voz da jovem
Ele ouve pela segunda vez a mesma frase...ouviu quando a primeira?

Ele desejou por tantas vezes aquele desejo e só lhe trouxeram tão depois...

Um dia, o homem sente que encontrou o improvável, o absurdo, o extra-essencial
Ele sente então, o encontro do novo, e se recorda nitidamente que o novo é rastro preparado
Por mãos de quem?
Ele sente que os passos rumo ao extemporâneo o desafiam
Porque ainda que contido, o homem sente o quão além de nós mesmos estamos nós.

Rio duas vias


Três bondinhos por sua Tereza
Posto que nove seja a menina que vem e que passa...
Nem só de Leblon vive a Lapa

Terra-província
Mar que se aterrou
Largo da Carioca que vende arte
Centro-Avenida
Avenida do Rio Branco...
Rio canto,
E se canta é samba
E samba é no morro
Se é morro, tem que ser Estácio
Estácio mira braços Redentor
Estende mãos Guanabara
Pra Guanabara, há quem diga que no Rio não tem Bahia
Há de ter Ilha Grande, tamanha Angra que estoure fenda do saco do céu
Há de ter travessura suburbana nas vilas e casas
Romper Janeiro na copa de um mar

Pra ser Laranjeiras, inegável planta-lá de pé
Rio duas vias
Nascente ao mar.

Show dos milhões


E os números são: 15,22,09,02, e 02.
Selmo estava paralisado, sentia o peso das veias saltando freneticamente. Mal podia conter a euforia, sua vontade era mesmo de acordar os vizinhos com seus gritos histéricos, bancar o boiola que sai do armário: – Dois milhões!

Desordenadamente, pôs-se a imaginar todos os sonhos que seriam realizados... as mil viagens à Paris, os casacos de couro, os ternos italianos, as mulheres que passariam por sua cama, carros,festas e a inveja que causaria.

Caminhou em direção ao banheiro e mirou-se fronte ao espelho, esboçou um sorriso de canto bolando todas as novas expressões faciais e o novo “estilo” que exibiria, optou de cara por forçar em todas as próximas conversas o sotaque paulista,(já que sempre viu nas novelas o quanto o “R” de poR favoR tende a soar mais ‘chick’) daria uma coçadinha na cabeça a cada som emitido, bem no estilo Fábio Junior, e pra finalizar, celular só se for no viva voz, dando a impressão de "importante".


Parou por um instante, interrompeu os planos a seco e sentou-se no chão de sua sala 4x4, angustiou-se diante da iminente parte “prática”. Então, seu rico dinheirinho teria uma preciosa parte abocanhada pelo governo e, logo os boatos correriam e seu telefone não pararia de importuná-lo, daí, os amigos do pré 1 reapareceriam todos para cobrar as farras e rodadas ‘por conta da casa’, sim, por conta de SUA casa. Os conhecidos só tocariam em assuntos relacionados a desemprego, os tios correriam para pedir pela mensalidade atrasada da faculdade dos primos, os irmãos nem se fala... iriam chorar todas as mazelas de quem vive de aluguel, até sua vó escolheria um péssimo momento para dar-lhe despesas com internações e velório, sua vida se transformaria em um inferno chamejante de pedintes.

Olhos inquietos, não miravam foco, o suor pingava...
Decidiu-se por fugir, sabe se lá o que inventar, falar talvez ao pai que virara travesti e decidira ‘ganhar a vida’ na Espanha. Ou, simplesmente sumir, correr dos pedidos de favores indesejáveis, sair do estado, do país, rumo aonde seu dinheiro estivesse a salvo dos olhos invejosos e pedintes.

Procurou relaxar, dos dias que teria para retirar seu prêmio faria ele a estratégia mais mirabolante para recebê-lo despercebido.
O suor agora secava e a pulsação diminuía, deliciou-se com um copo de café, jogou-se no sofá, ligou a TV que transmitia o ganhador do prêmio: - Verônica Santos, residente do interior da Bahia!
O peito de Selmo saltava pelos olhos agora totalmente arregalados, voltou-se em ato desesperado para o bilhete: - Não impossível, ta aqui: 15,22,09,02 e 03...calou-se e voltou rapidamente os olhos para o último número: 03...03?

Os olhos ardiam tanto, que foram adormecidos ainda abertos.
Voltava assim a pacata rotina anterior, vida ‘apertada’ de altos e baixos, mas Selmo estava ansioso novamente, segunda, era dia do jogo de cartas com os velhos amigos do pré 1.

Eudaimonia




A felicidade pode ser várias coisas, e coisas diferentes para cada pessoa.

O cara senta no sofá, come pipoca no copo de café, lava os rosto com bombril e vai até a rua comprar jornal, mas só se for a parte da tv, já se aborreceu várias vezes com o homem do balcão, não curte esportes e pra ser grosso e sincero ta cagando pro que rola lá fora...
O cara não tem um prato limpo em casa, e as roupas tão cheirando naftalina.

O cara levanta da cama de um pulo só, dá bom dia aos passarinhos,insetos e vizinhos, e toma suco de goiaba sem agrotóxicos. Toma um banho de ervas e vai até o mercado abastecer a dispensa.
O cara é metódico e cheira a talco.

A “mulé” é herdeira de uma puta herança é a reencarnação da madre Tereza. Vive a fazer trabalhos voluntários, das jóias que tem, só guarda o colar de sua falecida mãe como lembrança, de resto é sandália rasteira no pé pra agüentar as caminhadas rumo aos necessitados.

A “mulé” é lascada, e tem um rei na barriga, conhece todas as marcas de roupas e sapatos, e mesmo assim não sabe quanto custa um pacote de arroz. A última vez que fez alguma coisa por alguém ela tinha seis anos e foi forçada por sua mãe. A barriga ronca... mas os pés calçam aquele sapato idêntico ao de Valentim!

Os dois homens chamam-se Ernesto e não são opostos que vivem em lugares diferentes, são opostos que vivem dentro do mesmo espaço de corpo humano, pois Ernesto que cheira naftalina e Ernesto que cheira a talco são a mesma pessoa. O mesmo se dá com as duas mulheres: Duas Fernandas dentro da mesma.

Do confronto diário, brotando o descontrole de si, eles desfrutam da oscilação de certo e errado,simples e prepotente,ausência do triste e ausência do feliz,da euforia a depressão, da contradição a certeza.
E são felizes e miseráveis...são deuses cheios de si e humanos.
Das dúvidas que tem é instintivo saber que a sensação de felicidade brota quando fazem-se ingênuos e desbravadores de tudo quanto fosse singelo ou óbvio.
Das certezas que jamais chegarão a carregar o que ficam são sensações...momentos pelos quais nos tornamos responsáveis e que nos remetem ao gostinho de felicidade.

Rigor Mortis




Morte em vida já o era
Infeliz partida solitária
Da casa velha de móveis avermelhados
Ausentou-se de si a pequenina
Covarde é não partir pra ver como é...
Foi-se sem deixar recomendações
Decompôs sua essência perturbada
Decompôs seu corpo jovial

Descompasso e abandono daquele que fez-se ternura
Tomaram dois minutos talvez, latejar de todo pensar conquistado
Cessa ar, fôlego da vida
Partem células
Caminha o sangue, somos todos brancos
Rigor mortis de sua antiga fortaleza
Algor mortis de seu falecido desejo
Exala final, expele descomeço
Gusanos aliados de tua ausência
Abandono de teus cabelos loiros
Arranca esses olhos cinzas
Sugam a pele branca
Banquete da antiga fartura

Não a acolheram anjos
Não a importunaram demônios
Era maracatu do Seol
Era o nada inexistencial
Completo vazio a preencher o silêncio

Parto de partidas suicidas
Era rua Men de Sá 380
Coagiram a morte em goles
Masturbou toda putrefação
As pálpebras cerradas frustram expectativas
Amparou-se frente a despedida cotidiana
Enterrou mágoas
Ressurgiu recomeço
Feto de novo ciclo
Da próxima vez serei outra.